Carybé - Pintor de todos os mundos
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Vida e Obra
Escrito por Raí T. Rio   
CarybéO elegante Hector Julio Paride Bernabó era um cidadão do mundo. Argentino de nascimento, italiano de formação, carioca quando se tornou brasileiro e eterno baiano quando conheceu o candomblé. Carybé teve sua obra espalhada pelo planeta, inclusive murais nos aeroportos de Nova York e Londres, por exemplo. Muitos consideravam Carybé limitado como artista, mas sua produção tem trabalhos primorosos, em especial seus desenhos, famosos nos livros de seu amigo de longa data Jorge Amado. Inveterado amante da vida, Carybé era tocador de pandeiro, bom dançarino e contador de histórias. Acima de tudo, tinha um título de Obá de Xangô, o posto mais alto dado pelo candomblé, motivo de orgulho para ele que era admirador e devoto da religiosidade afro-brasileira, como seus deuses modestos e  humanos.

CarybéPor este amor com a religião, as cenas do candomblé ocupam boa parte da vasta produção deixada por Carybé (cerca de 5.000 trabalhos entre pinturas, desenhos esculturas e esboços). A porção mais grandiosa de seu trabalho é justamente o desenho, a aquarela e o nanquim. De maneira nervosa e moderna, com poucos golpes de pincel, ele era capaz de resumir a forma de baianas prostradas de joelhos como magníficos círculos coloridos.
Jorge Amado dizia que Carybé foi um observador de dentro do Candomblé, envolvido com a religião de forma apaixonada.

 

A Ascensão - 1986
A Ascensão - 1986
A argentina Nancy, sua companheiro de mais de 50 anos e com quem teve dois filhos, o artista plástico Ramiro e a bióloga Solange, costumava contar que o marido era um homem de tanta fé que jamais levava papel ou lápis para as cerimônias de candomblé. Achava falta de respeito. Guardava tudo de cabeça e desenvolveu uma memória visual fora do comum.
O apelido Carybé veio do nome de um mingau que adorava tanto que o adotou como nome artístico. Quando chegou a Salvador, ainda Hector, trazia a idéia de um projeto ambicioso: fazer uma reportagem com Lampião. No entanto, teve de se contentar em desenhar as cabeças do rei do cangaço e seus capangas, já decapitadas.
Sua família morava no Rio e ele já tinha no currículo trabalhos em publicidade para jornais de lá, de São Paulo e de Buenos Aires, além de ter pintado muitos cartazes de rua. Já se considerava um "branco suspeito", como dizia. Ouvira dizer que na sua família (mãe gaúcha, pai italiano) havia uma tia preta que até fumava cachimbo. Sua morenização parecia uma fatalidade.

 

Cosme e Damião - 1980
Cosme e Damião - 1980
Com uma carta do escritor Rubem Braga ao então secretário de Educação da Bahia, Anísio Teixeira, em 1950, Carybé arrumou o emprego que pediu a Deus: desenhar cenas baianas. Neste mesmo ano conheceu o marchand Valdemar Szaniecki, que mais tarde colocou suas obras numa galeria de São Paulo ao lado das de Mário Gruber, Di Cavalcanti, Aldemir Martins, Manabu Mabe e Clovis Graciano. No começo dos anos 80, diante da valorização crescente de sua obra, houve um derrame de quadros falsos atribuídos a ele em Salvador. As telas, com figuras chapadas na praia ou em casarios coloniais, eram vendidas por um quarto do preço de tabela. Com o passar do tempo, os larápios trocaram de alvo, preferindo falsificar artistas mais caros, como Di Cavalcanti e Guignard. No decorrer da vida, Carybé foi muito pouco premiado. Ganhou um primeiro lugar em desenho numa bienal de São Paulo e por duas vezes sala especial em outras bienais. Gostava de pintar, mas não de ficar expondo. Aos 86 anos ainda produzia apesar da debilidade física que o impedia de subir as escadas de seu ateliê. Morreu no meio do que gostava: durante uma sessão no terreiro de candomblé Ilê Axê Opô Afonjá, em Salvador, de ataque cardíaco.
 
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